Funai silencia sobre terras indígenas em Barcelos

Barcelos(AM) - Desde setembro do ano passado a Fundação Nacional do Índio – Funai, não presta informações sobre a identificação de terras indígenas no município de Barcelos (AM). “Não entendo porque a Funai de Brasília não demarca as terras se aqui não se gastará nada em indenizações. Aqui não existe conflito fundiário, é tudo terra indígena”, disse o técnico indigenista João Silvério Dias, o João Mineiro, lotado no núcleo de apoio da Funai em Barcelos – município localizado na região do Médio Rio Negro, a 396 quilômetros de Manaus, a capital do Amazonas.

O técnico da Funai fez essa observação durante o debate sobre a situação das terras indígenas por ocasião da Primeira Mobilização Geral dos Povos Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro, que se realiza na cidade de Barcelos desde ontem, 01/07, promovido pela Associação indígena de Barcelos – Asiba. Mais de 400 indígenas participam do evento.

João Mineiro disse que em 2003 foi criado um Grupo de Trabalho pelo órgão indigenista para fazer levantamentos e dar início ao processo de identificação das terras indígenas. Porém, o relatório não agradou aos indígenas, que pediram novo levantamento. Em 2007, outro GT foi criado, mas o resultado também não contemplou os interesses das comunidades indígenas. “A Funai deverá criar outro Grupo de Trabalho para começar do zero a identificação das terras”, informou João Mineiro.

Apesar de o indigenista negar a existência de conflitos fundiários na região, os indígenas fizeram vários relatos de invasão em suas comunidades. “Tem pessoas que se dizem donas de terras que moram em Manaus e em outros estados”, disse Clarindo Chagas Campos (Tariano), coordenador de cultura da Asiba. No rio Padauari, entre as comunidades Baturité e Cumaru, a prática de pesca esportiva promovida por um hotel de selva da localidade tem causado a escassez de pescado, relataram indígenas da localidade.

O coordenador da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro – Foirn, Abraão de Oliveira França, cobrou da Funai uma solução para retirar do rio Demeni uma empresa que mantém dragas na localidade explorado seixo. João Mineiro confirmou a presença das dragas e disse ter recebido confirmação das licenças para exploração expedidas pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis – Ibama, Departamento Nacional de Produção Mineral – DNPM e Instituo de Proteção Ambiental do amazonas – Ipaam. “Nós estamos acionando a direção geral da Funai para buscar uma solução para esse problema”, adiantou João Mineiro. As comunidades indígenas de Samaúma e Bacabal estão sendo afetadas pela extração mineral, pois se localizam abaixo do local onde as balsas estão fundeadas. “Eles estão muitos próximos da terra dos Yanomami”, relatou Hortência Lopes Campos (Dessana).

Manifestação – O encerramento da Primeira Mobilização Indígena promovida pela Asiba será marcado pela realização de passeata nas principais ruas de Barcelos nesta sexta-feira, 03/07. Os manifestantes irão parar em frente à sede da Funai, Funasa e Prefeitura Municipal. “Queremos deixar bem claro a todas as autoridades que nós existimos, que na área urbana somos mais de quatro mil e, nas 23 comunidades deste município, somos mais de mil e quinhentos indígenas de 26 povos diferentes, de várias regiões do Amazonas, sendo a maioria do rio Negro”, disse Maria Aparecida Dias, presidente da Asiba.

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