Sobre o Vale do Javari

Vale do Javari é uma terra indígena localizada nos municípios de Atalaia do Norte, Benjamin Constant e São Paulo de Olivença, no extremo oeste do Estado do Amazonas, fazendo fronteira com o Peru e na divisa com o estado do Acre.Fica distante de Manaus – a capital do Amazonas-, 1.138 km em linha reta, ou 1.623 km por via fluvial. Em linha reta é mais distante do que Curitiba (PR) a Belo Horizonte (MG) e, por via fluvial, é quase a mesma distância entre Rio de Janeiro (RJ) e Salvador (BA).

Algumas comunidades só são acessíveis pelos rios ou igarapés e, dependendo da época do ano, o deslocamento da cidade para a aldeia leva mais de 10 dias.

O Vale do Javari recebe as águas dos rios Curuçá, Itaquaí e Ituí, além de numerosos igarapés, numa região de grandes extensões de florestas intocadas que abrigam uma imensa riqueza de espécies animais e vegetais.

Devido à abundante ocorrência de mogno e cedro, duas das madeiras mais nobres e rentáveis da Amazônia, a região é cobiçada por empresas madeireiras. A extração da madeira é proibida por lei em todas as terras indígenas. No entanto, a lei não é respeitada e, além da madeira, invasores retiram ilegalmente pescado, caça e outros recursos naturais.

Povos Indígenas
O Vale do Javari é habitado por diversos povos indígenas da família lingüística Pano - Marubos, Matis, Mayoruna, Mayá e Kulina-Pano - e alguns de outras famílias - Kanamari, Djapá e Kulina-Arawá. Os indígenas vivem ali há milhares de anos.

Além destes, existem outros povos que nunca tiveram contato com os não-índios. Segundo o Conselho Indigenista Missionário – Cimi, são pelo menos seis povos. A existência deles é relatada por ribeirinhos e outros indígenas com os quais já se comunicaram ou, ainda, pela existência de vestígio da presença deles, como utensílios domésticos ou armamento para caça e outros.

Pelo menos um desses povos chamados isolados ou livres já é conhecido. O nome do povo é Korubo e são conhecidos na região como índios “caceteiros”. Eles são assim chamados porque levam sempre consigo grandes bordunas (cacetes).

Como vivem os índios
Em todo o Brasil, os indígenas são mais de 700 mil pessoas, de 250 povos, que falam pelo menos 180 diferentes línguas. Estima-se que a população indígena era superior a cinco milhões de pessoas quando chegaram os primeiros colonizadores, em 1500.

À medida que os colonizadores avançavam pelo território que hoje se chama Brasil, muitos povos resistiam em sair das suas terras porque já estavam ali há milhares de anos. Por causa disso, foram massacrados e exterminados.Os povos que habitavam a região litorânea – ponto de chegada dos colonizadores – foram os primeiros a sentir o impacto das invasões. Hoje restam parte dos indígenas que ali viviam.

Outros povos não tiveram contato tão próximo assim. Isso lhes permitiu que até hoje estejam vivendo de acordo com seus costumes e tradições. Alguns, apesar de habitarem lugares próximos das cidades, falam suas línguas, praticam seus rituais, caçam, pescam, tudo do jeito que sempre fizeram.

Na região do Vale do Javari, a maioria dos povos tem pouco contato com os não-indígenas. Os que moram próximo às cidades sofrem os impactos da ação dos não-indígenas, como a contaminação pelas doenças levadas pelos exploradores da madeira e de outros abundantes recursos naturais.

Quem ameaça os indígenas
Estudos indicam que no Vale do Javari viviam cerca de 15 mil índios até o final do século XIX. Esses povos foram drasticamente reduzidos. Hoje, somam pouco mais de três mil indígenas.

A extinção resultou do contato com as frentes extrativistas e seringalistas, que capturavam e escravizavam índios para trabalhar no corte da seringa (para produção de borracha) e também devido aos conflitos e doenças levadas por outros invasores não-índios. A proliferação de doenças como Hepatite B e malária representa a maior ameaça à vida dos povos indígenas daquela região.

No ano de 2006, o Distrito Sanitário Especial Indígena – Dsei (Funasa) registrou a ocorrência de 21 mortes por doenças. Em 2007, só no primeiro semestre, 19 indígenas haviam morrido por causa das doenças, conforme dados divulgados pelo Conselho Indígena do Vale do Javari – Civaja.


O que temos a ver com isso
Por todos esses anos, o Governo Federal não tem dado a devida atenção aos indígenas e presta assistência a eles de forma precária, sem resolver os problemas definitivamente. A falta de políticas governamentais para os indígenas os torna vulneráveis às doenças; favorece a invasão das terras, principalmente por madeireiros, pescadores e caçadores. Isso tem causado a destruição da floresta e representa ameaça de extinção para várias espécies de animais.

Os governos Federal, Estadual e Municipal não estão cumprindo de forma eficiente o papel que lhes cabe. Os povos indígenas do Vale do Javari precisam, portanto, de apoio de outros setores para não desaparecer. Eles trazem consigo uma experiência milenar de cuidado com a natureza e o meio ambiente – algo que nossa sociedade precisa conhecer e aprender para cuidar melhor do planeta e evitar ações que provocam, por exemplo, as mudanças climáticas. Seu modo de vida é um exemplo para toda a humanidade, por estar baseado numa economia de reciprocidade e no bem viver de todos os membros da coletividade.

Todos nós somos chamados a ajudá-los, a defender a vida deles. Por extensão, estaremos contribuindo também para a preservação da floresta amazônica – que é muito importante para manter o equilíbrio do clima e das águas no Brasil e no mundo todo.

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