Comunidades indígenas da Raposa Serra do Sol não estão em situação de miséria, contesta CIR

A informação repassada ao presidente do Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região, desembargador Jirair Meguerian, de que os índios da Terra Indígena Raposa Serra do Sol estão passando por “situação de penúria” não procede. A contestação é do coordenador de Convênios e Projetos do Conselho Indígena de Roraima (CIR), Júlio Macuxi.
Ele reconhece que existem comunidades enfrentando dificuldades, mas informou que a maioria das etnias que vivem na terra indígena homologada tem desenvolvido projetos de auto-sustentação e de alternativa econômica.

O coordenador disse que somente na TI Raposa Serra do Sol as comunidades são proprietárias de rebanho bovino que chegam a 30 mil cabeças, além de criação de suínos, piscicultura e produção de subsistência de milho, feijão e banana.

Só para se ter uma ideia, há comunidades que realizam todo o final de semana feiras-livres com os produtos próprios, como é o caso das aldeias de Pedra Branca e Maturuca. Tudo que é produzido pelas comunidades é levado aos domingo para esses locais, onde é comercializado para os próprios índios.

Júlio Macuxi reconhece também que o Governo Federal precisa investir mais em projetos nas comunidades indígenas, para que elas próprias possam desenvolver projetos alternativos e de auto-sustentação para não precisarem pedir favores aos governos e não passar por dificuldades.

Além desses projetos de iniciativa das próprias comunidades, muitos índios recebem Bolsa Família, Auxílio Maternidade e aposentadoria previdenciária, o que tem mantido muitas famílias.

Segundo ele, boa parte de recursos e projetos do Governo Federal é executada pelo Governo de Roraima e prefeituras, que muitas vezes não têm interesse algum em investir nas comunidades indígenas.

Há casos em que os recursos nem são aplicados, como o programa Luz para Todos, que até agora não chegou às comunidades indígenas. Júlio Macuxi afirmou que o Governo Federal deveria fiscalizar mais de perto esses programas e exigir que as verbas sejam efetivamente aplicadas.

GARIMPO – Júlio Macuxi disse que o CIR está elaborando projeto para regularizar a garimpagem pelos próprios índios, principalmente nesses locais onde o garimpo manual representa o sustento das famílias.

Mas ele disse que a garimpagem não pode ser predatória e que a autorização só deverá ocorrer se for de baixo impacto ambiental, dentro das normas ambientais exigidas pelas leis brasileiras.

O coordenador de Projeto disse que hoje a maior dificuldade está sendo enfrentada por comunidades que lutaram contra seus próprios direitos à terra, as quais foram abandonadas depois que o Supremo Tribunal Federal decidiu a questão e mandou retirar todos os não-índios.

“Mas o CIR está atento também para estas comunidades e vamos lutar para que elas sejam beneficiadas por projetos de auto-sustentação”, disse ao lembrar que as famílias não podem ser penalizadas por atitudes erradas tomadas por suas lideranças.

Júlio Macuxi frisou que as comunidades precisam tomar consciência de que elas mesmas devem buscar alternativas. Ele deu como exemplo a “Festa da Damurida”, evento anual realizado pela Comunidade de Malacacheta, no Município do Cantá, que gera renda para as famílias.

Coordenador diz que índio não pode ficar dependendo de ajuda

O coordenador-geral do CIR, Dionito José de Souza, também tem defendido que os povos indígenas da Raposa Serra do Sol lutem por autonomia para que possam caminhar com as próprias pernas. Nas assembleias regionais, ele tem dito que os índios precisam tomar consciência de que não podem mais ficar mendigando em gabinetes nem pedindo favores de quem quer que seja.

Ele disse que as famílias precisam produzir e trabalhar para que não fiquem dependentes de programas assistenciais como o Bolsa Família. Ele chama a dependência desse programa como “Bolsa Preguiça”.

“Vocês não podem ficar dependendo desse Bolsa Preguiça”, disse aos índios que estavam reunidos na Comunidade do Barro, há duas semanas, numa assembleia extraordinária do CIR.

Ele falou duro às lideranças regionais e aconselhou que depende das próprias comunidades trabalhar para que possam viver melhor e que possam comprar equipamentos e transportes para que não dependam de favores de políticos e governos.

Liderança das mulheres indígenas contesta  as informações passadas a desembargador

A vice-coordenador da Organização das Mulheres Indígenas (Omir), Martilza de Lima, participou da reunião com o desembargador Jirair Meguerian, na quarta-feira, na sede da administração local da Fundação Nacional do Índio (Funai).

Ela contestou a informação repassada ao desembargador sobre “a miséria em que estariam vivendo os índios da Raposa Serra do Sol”. “Eu disse que isso não é verdade, porque não representa a realidade da maioria das comunidades que vivem na terra indígena”, disse.

Martilza afirmou que hoje à tarde será apresentado um documento pelos índios que procuraram o ministro e que, se não conter nesse relatório a verdade sobre os índios, ela não vai assinar. O documento será entregue ao desembargador.

“O que nós queremos é que os parentes tenham condições de produzir para não ficarem pedindo dos governos. O governo vira as costas, por isso temos que fazer projetos para desenvolver nossa terra”, afirmou a líder das mulheres indígenas.

Ela também contestou a informação de que esteja havendo conflito entre os próprios índios por causa das terras homologadas. “Onde está havendo isso? Não é verdade, não existe índios brigando com índios por causa da terra”, protestou.

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