Dom Erwin, bispo do Xingu, envia carta ao Presidente Lula sobre a hidrelétrica de Belo Monte

O bispo da Prelazia do Xingu (Pará) e presidente do Cimi, Dom Erwin Krautler, torna pública a carta que enviou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no último mês de outubro. No documento, o bispo expõe as principais razões pelas quais boa parte da população do Xingu e diversos especialistas criticam o projeto de construção da hidrelétrica - prevista para o rio Xingu. Dom Erwin também trata do cerceamento da participação popular nas quatro audiências públicas sobre o empreendimento realizadas em setembro.
Em julho de 2009, o presidente Lula recebeu uma comissão de representantes do Xingu para discutir o projeto da hidrelétrica. Dom Erwin, representantes de povos indígenas e movimentos sociais do Xingu, Procuradores da República e pesquisadores apresentaram ao presidente os questionamentos e críticas da população xinguana à hidrelétrica. Na ocasião, Lula afirnou que ninguém iria "enfiar goela abaixo" a hidrelétrica de Belo Monte.

Abaixo, as principais críticas ao projeto da hidrelétrica.

1- A usina vai funcionar com a potência de 11 mil megawatts apenas três ou quatro meses no ano. Quando o rio Xingu fica com menos volume d’água, a potência baixa, chegando a não ultrapassar 1.100 megawatts.

2- Se apenas for construída a usina Belo Monte, não deixa de ser um despropósito técnico assegurar a potência prevista no projeto. O projeto só terá condições de alcançar a potência almejada, se forem construídas outras usinas rio acima. Neste caso, os reservatórios atingirão outros territórios indígenas e áreas de conservação ambiental.

3- Não se sabe quantas famílias serão compulsoriamente retiradas de suas moradias. Não existem cálculos fidedignos. Nem sequer são relacionadas todas as ruas a serem alagadas. Fala-se de “ruas“ e não das ”moradias” ao longo dessas ruas. A população atingida está sendo tremendamente subestimada e isso vai comprometer o próprio leilão, pois as empresas não saberão quanto terão de gastar com os custos sociais. Sabemos que tais cálculos serão feitas na ponta do lápis. Gasta-se apenas o estritamente necessário. Onde já se viu uma empresa dessas comover-se e solidarizar-se com os pobres e promover obras de caridade para mitigar a miséria das famílias atingidas?

4- A região da Volta Grande do Xingu ficará praticamente seca com a construção da usina. A exemplo do que aconteceu com a cachoeira de Sete Quedas na construção da usina de Itaipu, também Belo Monte destruirá ou modificará cem quilômetros de uma sucessão de cachoeiras, corredeiras, canais naturais.

5- Haverá uma forte pressão populacional na região do Xingu em relação à população atraída pela obra. As cidades não dispõem da infra-estrutura, não tem escolas e hospitais suficientes para garantir vida digna para toda essa gente. O projeto só está pensando na infra-estrutura e na saúde de quem for trabalhar na construção da usina. A população restante, cinco vezes maior, ficará na miséria, exposta à criminalidade e agredida pelos antros do narcotráfico e da prostituição. Será o caos!

6- Por que para os municípios Senador José Porfírio e Porto de Moz não foi programada nenhuma audiência pública. Esses municípios ficam à jusante e sofrerão enorme impacto se Belo Monte for executado. Os afluentes do Xingu localizados naqueles municípios secarão e o povo que vive da pesca e da agricultura familiar perderá a base de sua subsistência. Que estudos foram feitos a esse respeito?

7- O que será da cidade portuária Vitória do Xingu, à margem do Rio Tucuruí, afluente do Xingu. Já agora, navios, balsas e barcos que levam passageiros e mercadorias ao porto de Vitória encalham muitas vezes durante o verão tropical. Se Belo Monte for construído, esse porto, sem dúvida, será desativado, pois também o Tucuruí baixará de nível a ponto de impossibilitar a navegação. Onde ficam os estudos sobre as perspectivas para Vitória do Xingu?

8- Nem se sabe o quanto vai custar a usina. O próprio presidente da Eletrobras fala em custos que variam de um mil a três mil dólares o quilowatt instalado, o que significa que o custo total pode chegar a 33 bilhões de dólares, ou 60 bilhões de reais para uma usina que estará parada várias meses durante o ano. Será que gastos que chegam a parâmetros tão exorbitantes podem ser justificados perante a nação?

9- Na dimensão social e ambiental os estudos são insuficientes, para não dizer imperdoavelmente omissos, pois aí o assunto não gira em torno de energia e megawatts, de máquinas e diques, de paredões de cimento e canais de derivação, mas de pessoas humanas de carne e osso, de mulheres e homens, crianças, adultos e idosos que sofrerão os impactos. E o meio-ambiente que no Xingu já começou a sucumbir às inescrupulosas investidas de destruição e aniquilamento, tornando-se inabitável e deserto como já pode ser verificado em algumas regiões, receberá mais um golpe de consequências desastrosas e irreversíveis.

Fonte: Conselho Indigenis Missionário

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