Pela saúde, pela vida: Campanha mobiliza povos do Vale do Javari

O posto de saúde da comunidade Lobo é um dos retratos da realidade da assistência à saúde no Vale do Javari. Construído há cerca de dez anos, a pequena casa de madeira, de aproximadamente seis metros quadrados, conta com uma mesa, uma cadeira e uma balança. Vários frascos de remédio ficam espalhados pelos beirais da construção. Numa das três paredes ainda estão afixados dois cartazes de campanhas de prevenção contra malária e gripe. A cobertura não está completa: a falta de algumas telhas denuncia a precariedade do local.  Ali mesmo, encontramos Renato Nascimento, técnico da área de saúde, fazendo registro dos doentes e da medicação ministrada no livro comprado pelos próprios funcionários. Aos poucos chegam mulheres com várias crianças. A maioria foi ali para dar continuidade ao tratamento de doenças como malária, diarréias e doenças respiratórias. Somente naquela comunidade onde moram em torno de 400 pessoas, há vários casos de contaminação por vírus das hepatites tipos “B” e “C”.
Hepatite e malária tem sido a causa, nos últimos anos, da maioria das mortes naquela região. Ao longo de 2010, entre os índios Kanamari, habitantes do rio Itacoaí, aconteceram pelo menos 12 mortes de crianças. Entre os adultos, uma conhecida liderança do povo, Edmilson Kanamari. O cacique General, da aldeia Massapê, perdeu muitos parentes por causa das doenças, entre os quais a única filha, falecida em fevereiro passado, com cerca de 30 anos, deixando cinco crianças. O número de órfãos – dizem os indígenas- está aumentando e muitos deles já estão condenados pela hepatite.
O alto índice de contaminação e mortes parece ser resultado de vários anos de descaso por parte do poder público, má utilização dos recursos públicos e falta de ação efetiva para assegurar assistência e meios de prevenção das doenças. Segundo reclamação de várias lideranças indígenas, a Secretaria Especial de Saúde Indígena – Sesai, ainda não “mostrou a cara” no Vale do Javari – o prazo para a transição da Fundação Nacional de Saúde - Funasa para a  Sesai, que passará a responder pelo atendimento à saúde, foi prorrogado até dezembro de 2011, de acordo com Decreto número 7.461, de 18 de abril de 2011.
A Funasa, ao longo dos anos em que ficou incumbida de prestar assistência às comunidades, nunca agiu de forma eficaz e eficiente. A maior e mais “badalada” ação aconteceu em 2008, quando foram aplicados recursos vultuosos numa operação que mobilizou vários ministérios e as forças armadas, para levar médicos a algumas aldeias do Vale do Javari. A ação só teve efeito pirotécnico, pois durante os dias em que durou morreram 12 indígenas por falta de assistência.
Cansados de esperar a solução que não vem e com muita desconfiança dos órgãos governamentais, os indígenas decidiram realizar uma campanha em busca de solidariedade e para mobilizar vários setores da sociedade tendo em vista pressionar o Governo Federal. “Unidos pela saúde, pela vida” foi o slogan adotado para esta iniciativa. “Queremos mostrar para todo o Brasil e para o mundo que nós existimos, mas estamos ameaçados por doenças que o governo brasileiro não combate como deveria”, desabafa Kurá Kanamari.
A campanha será realizada pela União das Nações Indígenas do Vale do Javari – Univaja, juntamente com outras oito organizações regionais e com apoio do Conselho Indigenista Missionário – Cimi, Diocese do Alto Solimões e Equipe Itinerante.

Assembléia Geral

Há algum tempo não se via o movimento indígena da região do Vale do Javari com tanta disposição. Essa era a opinião de grande parte das lideranças indígenas reunidas na II Assembléia Geral do Univaja, onde estavam reunidos cerca de 200 representantes dos povos Mayoruna, Kanamari, Marubo e Matis.  O evento aconteceu na comunidade Lobo, localizada no igarapé do mesmo nome, na bacia do rio Jaquirana, afluente do Javari, na fronteira com o Peru.
A comunidade fica a 918 quilômetros, por via fluvial, de Atalaia do Norte - município situado no extremo oeste do Amazonas, na tríplice fronteira Brasil-Peru-Colômbia. Os moradores da comunidade Lobo são indígenas do povo Mayoruna.
 Além de ser um marco na retomada da luta indígena na região, a Assembléia teve por finalidade criar uma comissão regional formada paritariamente por indígenas e funcionários para Fundação Nacional do Índio – Funai, como parte da Coordenação Regional do órgão que há pouco mais de um ano passou por uma reestruturação.
No dia primeiro de maio, no encerramento da Assembléia, os participantes elegeram Jader Comapa Marubo e Gilson Mayoruna (Gaúcho), coordenador e vice-coordenador, respectivamente, da Univaja.

Povos isolados também correm risco

Contaminação por gripe e outras doenças infecto-contagiosas é um dos maiores temores que a Frente de Proteção Etno-Ambiental do Vale do Javari tem em relação aos povos que ainda não têm contato com a sociedade envolvente. Os Korubo, com os quais a frente vem se aproximando desde o final dos anos 90, são os mais vulneráveis. “Nosso temor é fazer um sobrevôo na área e localizarmos um grande número de indígenas mortos por essas doenças”, alerta Fabrício Amorim, coordenador da Frente.
Segundo ele, o risco para os povos isolados, especialmente daqueles cuja presença já é confirmada, decorre da falta de uma política de saúde preventiva para eles. Se para os demais indígenas do Vale do Javari o atendimento é precário, o quadro se agrava porque não existe ainda uma proposta para proteger os isolados.
Fabrício Amorim não acredita que os Korubo ou algum outro grupo seja afetado pela hepatite – uma das doenças que mais provoca mortes entre os indígenas da região. “É mais temeroso que eles sejam contaminados por gripe, tuberculose ou algo parecido que seja transmitido pelo contato, por roupas contaminadas ou coisa parecida”, explica Amorim. Até agora, a Frente confirma a existência de oito grupos isolados e outros cinco dos quais se sabe da existência por meio de vestígios encontrados na mata mas que ainda necessitam de maior investigação.

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