Vale do Javari: os caminhos da solidariedade na Amazônia

Entre os dias 28 de abril e 1º de maio foi realizada a II Assembléia da União das Nações Indígenas do Vale do Javari – Univaja, na comunidade Lobo, com mais de 200 representantes dos povos Marubo, Matis, Mayoruna e Kanamari. Uma equipe do Cimi Norte I esteve no local apoiando a iniciativa dos indígenas.

Era para ser uma viagem de três dias, num percurso de aproximadamente 900 quilômetros, pelos rios e igarapés do Vale do Javari. A cidade de Atalaia do Norte fica a 1.138 quilômetros de Manaus, a capital do Amazonas, em linha reta. Ali era o nosso ponto de partida. Chegamos na tarde de quarta-feira, 20 de abril. As informações sobre a partida eram contraditórias: uns diziam que sairíamos na quinta; outros, porém, argumentavam que era necessário esperar pelo coordenador da Univaja, André Mayoruna, que ainda estava em Brasília. Enquanto aguardávamos, trocávamos idéia com Josefa e Diana sobre os desafios de trabalhar junto aos povos do Vale do Javari.
Por volta das sete horas da Sexta-feira Santa, 22, partimos de Atalaia num deslizador. Éramos, então, oito pessoas: Irmã Edina, da coordenação do Cimi Norte I; J. Rosha, jornalista; Josefa e Diana, da equipe local; Frei Paolo Braghini, o comandante da pequena embarcação; Jorge, um seminarista Jesuíta; Kel, ex-integrante do Cimi e morador da região, que também exercia a função de piloto, juntamente com “Legal”, que estava no apoio, naquela ocasião.
Viajamos pelo rio Javari durante todo o dia. Paramos, por volta das 14 horas, na comunidade Campinas, onde por alguns instantes conversamos com os moradores. Às 15 horas, num dos furos (atalhos de áreas alagadas pelo meio da mata), encontramos um grupo de indígenas cuja canoa havia naufragado. Três adultos e uma criança faziam malabarismo para recuperar a canoa e não perder os aparelhos eletrônicos que transportavam. Nossa ajuda fora apenas de levar o motor até a comunidade onde eles moravam.
Já pelas 19 horas, entramos no rio Curuçá, um dos afluentes do Javari, onde a maioria das comunidades indígenas é do povo Marubo – o mais numeroso da região, com uma população de aproximadamente 1.200 pessoas. Pernoitamos na comunidade Flores, de onde saímos no sábado com os primeiros raios do sol.  Chegamos por volta das 17 horas na comunidade Nova Esperança – localizada no rio Pardo, afluente do Curuçá-, de onde viajaríamos de “pec-pec” (um pequeno bote com moto tipo “rabeta” de 5HP) durante todo o dia seguinte até a “boca” do varadouro da comunidade Lobo. Foram precisos dois dias para chegar lá, devido as dificuldades de navegação no rio Negro: à medida em que avançávamos o rio tornava-se estreito e com muitas árvores – algumas das quais levaram tempo para serem removidas ou cortadas para dar passagem à pequena embarcação.
Naqueles dias, a alimentação era conseguida diretamente da mata: carne de jacamin, mutum e macaco, que os indígenas caçaram.
O caminho até a comunidade Lobo tinha aproximadamente 20 quilômetros, que os indígenas percorrem, normalmente, em seis horas. Os não-indígenas levariam de dez a 12 horas para percorrer. Saímos num grupo de mais de 20 pessoas bem cedo na segunda-feira, 25. Logo nos deparamos com as dificuldades: igarapés que tínhamos de transpor com muito equilíbrio sobre estreitos caules de árvores; ladeiras muito altas; terreno escorregadio; trilhas que precisavam ser abertas e árvores de todos os tamanhos que tínhamos de transpor, ora por baixo, ora por cima, com mochilas grandes e, algumas, pesadas. 
À frente, os indígenas seguiam sua marcha, em passos rápidos. Dos missionários, dois acompanhavam os passos deles e uma parte ia ficando para trás. Para estes, a jornada foi mais longa: uma noite da mata, dormindo sob “tapiris” (pequenos abrigos que os indígenas constroem) improvisados, perto de um pequeno igarapé, atacados por formigas e, depois de certa altura da noite, sob forte chuva. Era mais ou menos 21 horas quando um grupo de três indígenas e um técnico de saúde nos alcançou, com comida e remédios.
Retomamos a caminhada na manhã seguinte, por volta das sete horas, com alguns machucados. Fomos avançando lentamente por causa disso. Ao meio dia, outro grupo de indígenas nos encontrou a uns dois quilômetros de distância com a incumbência de carregar nosso colega jornalista, que já se encontrava naquele momento sem resistência para seguir adiante. Ele foi transportado numa rede até o igarapé lobo, de onde continuamos em outra pequena canoa até a aldeia, cerca de um quilômetro dali. 
Todos os eventos acontecidos ao longo do trajeto nos permitiram ver com mais clareza que a solidariedade é o caminho a ser trilhado na região do Vale do Javari. Iniciamos nossa jornada com finalidade de levar apoio aos indígenas e chegamos ao local graças ao apoio deles.
Naquela região vivem mais de quatro mil indígenas dos povos Marubo, Mayoruna, Matis, Kanamari, Kulina, além de grupos isolados, que se recusam ao contato com a sociedade envolvente, como os Korubo e outros 13 dos quais não se sabe o nome.
Nos últimos dez anos, muitas mortes vêm acontecendo devido à precária assistência à saúde. Contata-se que mais de 85% da população está contaminada por um ou mais vírus da hepatite, sobretudo do tipo “B” – que é mortal e não tem cura. Somente em 2010, num período de 40 dias, 12 crianças Kanamari faleceram. E outro quadro delicado fica por conta do grande número de órfãos, que também perderam os pais por causa das doenças. “Deixamos de fazer nossas festas porque estamos chorando nossos mortos”, lamenta Kurá Kanamari.
Um retrato do drama enfrentado na área da saúde foi a ausência de indígenas do povo Marubo na assembléia realizada na comunidade “Lobo”.  Apenas quatro lideranças da cidade participaram, enquanto muitos representantes das aldeias tiveram de ficar também chorando pelos mortos.
Devido ao risco de extinção e o descaso dos órgãos governamentais de assistência à saúde, os indígenas decidiram promover uma campanha de abrangência internacional para sensibilizar a população e mobilizar vários segmentos em pressão ao Governo Federal.
Povos Indígenas do Vale do Javari: Unidos Pela Saúde, Pela Vida” é o apelo dos indígenas em busca de refazer o caminho da vida no Vale do Javari, para o qual a solidariedade de todos é imprescindível.



Fortalecendo o Movimento Indígena na região

Entre os dias 28 de abril e primeiro de maio, cerca de 200 lideranças indígenas de todo o Vale do Javari participaram da II Assembléia Geral da União das Nações Indígenas do Vale do Javari – Univaja. A assembléia aconteceu na comunidade Lobo, localizada no igarapé do mesmo nome, na bacia do rio Jaquirana, afluente do Javari, na fronteira com o Peru.
O evento tinha por finalidade criar uma Comissão Regional formada paritariamente por indígenas e funcionários da  Fundação Nacional do Índio – Funai, como parte da Coordenação Regional do órgão que há pouco mais de um ano passou por uma reestruturação. No dia primeiro de maio, no encerramento da Assembléia, os participantes elegeram Jader Comapa Marubo e Gilson Mayoruna (Gaúcho), coordenador e vice-coordenador, respectivamente, da Univaja.
Um dos marcos importantes da Assembléia foi a rearticulação do Movimento Indígena no Vale do Javari. Até nesse aspecto a falta de assistência interferiu durante muitos anos. A organização indígena Conselho Indígena do Vale do Javari – Civaja, durante alguns anos ficou responsável por atender as comunidades. Isso foi um dos mais desastrosos resultados da política governamental de “terceirizar” a assistência à saúde, repassando para organizações indígenas ou organizações não-governamentais – ONGs, o atendimento nas aldeias.
A Campanha de solidariedade aos povos do Vale do Javari também foi discutida e aprovada na assembléia dos povos indígenas do Vale do Javari. Organizada pela Univaja e outras oito organizações locais, a Campanha é apoiada pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi Norte I), Diocese do Alto Solimões, Equipe Itinerante e Frades Capuchinos. 

Ir. Edina M. Pitarelli SSpS

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