Museu Maguta: Resistência dos Tikuna contra o preconceito

Na manhã de 28 de março de 1988, madeireiros mataram quatro indígenas do povo Tikuna, feriram 23 e causaram o desaparecimento de outros dez nas águas do rio Solimões, em uma emboscada no Igarapé Capacete, na comunidade São Leopoldo, em Benjamin Constant, no extremo oeste do Amazonas. Àquela época, no afã de impedir a demarcação das terras, grupos de madeireiros, posseiros e pescadores provocam conflitos e incitavam a população contra os indígenas, acirrando a onda de preconceitos na região do Alto Solimões.
Depois de pouco mais de 20 anos devido, sobretudo, a resistência pacífica dos indígenas, o preconceito ainda existe, mas não a ponto de representar ameaça aos Tikuna. Um marco importante na luta para conquistar o respeito da população foi a criação do Museu Maguta, localizado no centro de Benjamin Constant, na Avenida Castelo Branco – sobrenome do madeireiro que comandou o massacre do Igarapé Capacete, como ficou conhecido o episódio acima relatado.
As atividades do museu começaram em meados dos anos 90. A inauguração deveria acontecer em 1993, mas foi impedida por uma grande manifestação popular, contrária aos índios, conforme explica Nino Fernandes: “Na época, houve muita pressão por parte da população. Os convidados tiveram que voltar de Tabatinga e de Manaus, para evitar algo mais sério”. Nino Fernandes foi dirigente do Conselho Geral da Tribo Tikuna – CGTT, organização sediada também em Benjamin Constant. Atualmente, ele trabalha no museu como voluntário e foi uma das testemunhas daquele momento vivido pelos indígenas do Alto Solimões.
Apesar da pressão, os indígenas insistiram e fizeram o museu funcionar. “Aos poucos, incentivamos as comunidades a participar, a enviar artesanato. Hoje tem muitas comunidades contribuindo com material que é vendido aqui (em Benjamin Constant)  e distribuído para Manaus”, diz Nino.
Ele conta que a idéia de criação de um museu surgiu em 1985, numa assembléia dos Tikuna realizada na aldeia Vendaval, localizada no município de São Paulo de Olivença. Os caciques sentiam o forte peso do preconceito. “Os indígenas não podiam chegar perto do porto das cidades que eram rejeitados e perseguidos. Não éramos respeitados e ainda éramos tratados como animais”, conta Nino Fernandes. “Por isso, as lideranças viam no museu uma iniciativa pra mostrar a cultura e adquirir o respeito da população”, acrescenta.
Para ele, atualmente existe uma convivência mais respeitosa. “Hoje, muitos filhos daqueles que antes agiam contra os indígenas procuram o museu. Até a esposa de um dos líderes do massacre do capacete hoje faz pesquisa sobre os Tikuna”, diz Nino. Estudantes, pesquisadores, jornalistas e profissionais de várias áreas, de várias partes do mundo, já passaram por lá e contribuíram para divulgar a cultura dos Tikuna pelo país afora.
Se, por um lado, o preconceito já não pesa, outros problemas desafiam os indígenas. “Temos algumas dificuldades para manter uma instituição desse porte. Não temos convênio com nenhuma entidade, de modo que todas as despesas são pagas com os recursos arrecadados com a venda de artesanato”, relata Nino Fernandes.   
O Museu Magüta (palavra que na língua Tikuna significa “gente”) é destinado a promover a cultura, a história e preservar a memória dos Tikuna. Esse povo vive em mais de 100 aldeias nos oito municípios do Estado do Amazonas que fazem parte da região do Alto Solimões.  Sua população é superior a 35 mil pessoas índios no Brasil, além daqueles que vivem na Colômbia e Peru. 

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