Carta de Manifesto DA ASDEC

A ASDEC, uma organização indígena de base da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari – UNIVAJA vem ao público manifestar sua preocupação diante de uma dramática situação de saúde em que vive os povos indígenas desta região.

O descaso de atendimento de saúde aos povos indígenas do Vale do Javari é uma questão já conhecido a nível nacional e internacional há décadas.
Inúmeras denúncias partindo do movimento indígena e de organizações não governamentais já vêm sendo apresentadas as instância competentes do governo e para Organização Mundial de Saúde por meio de Protocolo.
Inclusive a Procuradoria Federal por meio da 6ª Câmara é sabedora desta realidade crucial da vida desses povos indígenas que vivem nesta região do Vale do Javari.

Tal contexto, já foi apresentado pelos nossos líderes para Organização das Nações Unidas em 2008 na cidade de Washington nos Estados Unidos.    Porém, não há mudança em suas ações, o que permite o agravamento do quadro situacional de saúde desses povos indígenas.

O que podemos de chamar de mudança no quadro atual da situação de saúde é essa:

A SESAI, um novo órgão criado para resolver o velho problema de saúde da nossa população indígena, ainda esta se engatinhado com o mesmo modelo de período arcaico deixado pelos seus antecessores. Sem levar em conta, o grau de risco que esses povos indígenas estão vivendo.   Isto é, não existe uma equipe preparada e qualificada para propor uma ação condizente com a realidade situacional de saúde desses povos.

Em outras palavras: “enquanto a Coordenação Técnica do DSEI, futuro setor da Divisão de Saúde ainda não preenchida, cumprindo seu cronograma técnica de enviar os profissionais de saúde apenas com arma sem munição para enfrentar o leão, a vida dos índios continua sendo devoradas”.
Ou ainda podemos dizer: Enquanto, o Plano Distrital não for acatado pela instância competente do órgão e executado pelo DSEI, as ações de saúde continuará com caráter emergencial, o que não resolve o crônico problema de saúde.

O que demonstra uma ação de um total descaso, decorrida de uma política impotente e despreparado para enfrentar os problemas, resumido em um desastre sanitário.

Uns desses exemplos de desleixos ocasionados por falta de planejamento podemos citar, as mortes de mulheres por septicemia, de agravamento do câncer de colo uterino, aumento de taxa de mortalidade infantil, aumenta de casos de Tb nas aldeias, aumento de casos de DSTs e a continuidade de transmissão das hepatites por falta de uma ação de erradicação que seriam a instalação das geladeiras solares nos Pólos Bases para armazenamento de imunoglobinas e vacinas, treinamentos e capacitações de recursos humanos.
Os pacientes indígenas que são retiradas de área são esquecidos na unidade de Casa de Saúde Indígena – CASAI por falta de chefia que já completa seus 06 anos sem o devido comando.

Uma situação constrangedora vivida pelos indígenas da etnia Marubo no momento atual, é a morosidade de translado de corpo de uma indígena que faleceu na noite do dia 8 na cidade de Manaus, que devido ao problema de acerto com a empresa aérea conveniada, o corpo vai ter que ficar até quarta-feira dia 19. O que põem de contra o respeito a integridade física e cultural desses povos.
A morte dessa indígena foi uma das histórias mais tristes que eu acompanhei pessoalmente e via telefonia a falta de responsabilidade dos profissionais investidos para trabalhar na saúde indígena.

Desde que a paciente embarcou para Manaus por recomendação médico, a família não teve mais informações. Soube da piora do quadro depois de duas semanas por acompanhante que me informou sobre o estado da paciente. Comuniquei pra família via radiofonia conforme combinado com eles de que iríamos acompanhar situação da paciente através do DSEI Manaus.  As 19 horas do dia 08, recebi ligação da paciente que já teria ido a óbito. Logo cedo, comuniquei novamente pra família sobre ocorrido. Todas essas comunicações recebi de um dos acompanhantes.  No dia seguinte, nem Chefia do DSEI Manaus não sabia do ocorrido. Chegaram a duvidar da comunicação que já teríamos passado a família na aldeia e toda aldeia já sabiam. Um dos enfermeiros do DSEI Manaus teve que ir ao hospital confirmar a morte. Essa informação foi oficializada entre os responsáveis já a tarde.

Problemas dessa natureza não foram apenas com a paciente que faleceu, temos outros pacientes que estão passando pelas mesmas situações e que as famílias não sabem.
Tudo isso nos demonstra que realmente, os quadros de profissionais de saúde do DSEI não estão preparados a trabalhar com a saúde indígena começando da ponta a alta complexidade. Tirei conclusão de que, os profissionais responsáveis pelo encaminhamento dos pacientes falta a aprender que estão trabalhando com a saúde indígena, dentro de uma política que reza o atendimento diferenciado, a humanização de atendimento, o que acometem a falta de responsabilidade com os seus próprios trabalhos e respeito aos índios.

Tal fato, revolta as lideranças indígenas da etnia Marubo e que os mesmos estão se programando para descer a sede do município. Afim promoverem suas manifestações e pedirem socorro. O que pode generalizar uma mobilização regional no Javari. Os mesmo já pediram demissão de alguns profissionais que estão frente da responsabilidade do DSEI.

Diante do contexto, pedimos que as instituições parceiras nos ajudem mobilizarmos as instâncias competentes do governo, a Organização Mundial de Saúde, a UNICEF,  a Procuradoria Federal para  promovermos o Seminário de Saúde para discutirmos o modelo de ação, a implantação dos programas e fortalecimento das políticas já existentes no âmbito da política de saúde para os povos indígenas do Vale do javari.

Pois, muitos dos nossos parceiros também são sabedores da nossa realidade e que precisam fortalecer a nossa corrente de união para fazer algo em prol da saúde dos nossos povos.


Atalaia do Norte-Am, 17 de outubro de 2011.


Manoel Barbosa da Silva - Chorimpa
Diretoria da ASDEC

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