FUNAI SABIA DA CRUELDADE DOS MILITARES. CONSCIÊNCIAS ABAFADAS E REPRIMIDAS


2000 Waimiri-Atroari desaparecidos durante a ditadura militar


Durante a construção da BR-174, todas as pessoas da FUNAI que tiveram alguma autoridade e atuação nesta região, sabiam da crueldade dos militares contra os índios Waimiri-Atroari. Quando não integraram diretamente a ação dos militares, se omitiram. Alguns participaram de reuniões com os militares, onde foi decidido o uso de violência e atéde armas de fogo para reprimir os índios. Outros tiveram em mãos documentos oficiais elaborados de comum acordo entre a FUNAI e o Exército, que determinavam a repressão violenta contra os Waimiri-Atroari e os mantiveram sob sigilo até que a resistência dos índios estava aniquilada. 


Alem de esconderem da opinião pública esses documentos ajudaram a manter os jornalistas, os pesquisadores e o movimento popular, principalmente o CIMI que denunciavam as atrocidades do governo, distantes dos acontecimentos. Os funcionários que tentaram abrir o jogo, como Apoena Meirelles, não permaneceram por muito tempo no cargo. Depois que deu entrevista ao Jornal Opinião do Rio de Janeiro em 17-01-75, onde afirmou que funcionários da FUNAI tiveram participação ativa na violência contra aquele o povo Waimiri-Atroari, o seu afastamento da área não se fez esperar.


“Em todos os conflitos – afirmou Apoena na entrevista ao Jornal Opinião - houve baixas de ambos os lados. Em Brasília todos pediam que  eu tivesse cuidado com os traiçoeiros Waimiri-Atroari. Mas a estória é outra, e chegamos mesmo a mentir à opinião pública nacional, não contando a verdade dos fatos que levam esses índios a trucidar as  expedições pacificadoras... é a estrada que corta  a sua reserva, proliferando o ódio e a sede de vingança contra o branco invasor,  foram os assassinatos praticados pelos funcionários da FUNAI durante os dois últimos conflitos.”


“Os Waimiri-Atroari tombaram no silêncio da mata e foram sutilmente enterrados e esquecidos no espaço e no tempo. Hoje em dia vamos em missão de paz, de amizade com os índios, mas na verdade estamos é trabalhando como pontas de lança das grandes empresas e dos grupos econômicos que vão se instalar na área. Para o índio fica difícil  acreditar em missão de paz se atrás de você vem um potencial de destruição ecológica.”


Milton Lloli, outro funcionário da FUNAI que em tempo oportuno ergueu a voz e denunciou: “os índios (Waimiri-Atroari) estão sendo humilhados, feridos em seus princípios tribais, daí a revolta, a ânsia de matar o branco. E a única maneira de vingarem a morte dos seus antepassados e guerreiros é matando o pessoal da FUNAI, que para eles mentem e procuram afastá-los de sua comunidade, de sua tribo.


Os Waimiri-Atroari hoje vivem de forma aleatória e essa situação complicou-se mais ainda devido unicamente aos processos de pacificação impostos pela funai, que não oferece às tribos as mínimas condições de sobrevivência, pelo contrário, está levando-os ao extermínio”. (A Critica” de 4 de março de 1975). Milton LLoli foi demitido pelas autoridades da FUNAI que temiam “que muitas verdades sobre os seus erros de pacificação dos índios fossem a público, o que comprometeria toda a estrutura do órgão.”.() Não contente em demiti-lo, essas autoridades da FUNAI apresentaram Lloli à opinião pública como “analfabeto” e “débil mental”.  No caso Lloli a relação entre os objetivos da FUNAI e os do regime militar eram tão evidentes que a sua demissão foi assinada pelo representante da FUNAI e pelo comandante militar da 1ª Companhia do 6º BEC.


Ângela Baptista, antropóloga da Divisão de Identificação e Delimitação/DGPI/FUNAI, encarregada de fazer o levantamento da área Waimiri-Atroari em 1981, no seu parecer conclusivo pergunta: “como dar ou tirar terra de um grupo indígena se não temos conhecimento de sua realidade sócio-economica, política, cultural, cosmológica... Como justificar uma área se não sabemos que locais os indígenas utilizam para a caça, a pesca, agricultura de subsistência...” Ao final se posicionou contra o plano da Funai de desmembrar a parte Nordeste-Leste da Reserva para a Mineradora Paranapanema. 


No dia  seguinte à entrega de seu relatório foi despedida do órgão.(2) Num evidente incentivo aos militares para que avaliem melhor o seu comportamento durante a construção da Br-174, o general aposentado, Altino Berthier Brasil, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, chefe de gabinete do ex-secretário do Meio Ambiente, José Lutzenberger, em livro entitulado “O Pajé da Beira da Estrada” e dedicado  “ao anônimo irmão Waimiri-Atroari, cujo cadáver mal enterrado deparamos, muitas vezes, pela frente”. < escreve: “Ninguém ignora a importância do fator psicológico dentro do contexto de qualquer contenda... 


Tanto se falava nos massacres praticados pelos Waimiri-Atroari que  mesmo a pessoa pouco identificada com a saga daquele povo dentro da história era persuadida a adotar a ideologia do ódio... 


Assim, a opinião pública, devidamente manipulada, aplaudia o avanço da  estrada a qualquer preço, apesar dos selvagens. Poucos eram aqueles que vestiam a pele do índio e analisavam o problema com isenção e sabedoria. Era fácil e relevante estar do lado mais forte. Ser índio ou defender sua causa era ignorância – pura subversão. Qualquer crítica ou simples ponderação eram recebidas como execrável falta de patriotismo”. 1 


A FUNAI como órgão do governo nunca foi a favor do índio. Nunca lutou pela garantia de suas terras, contra os grandes projetos que o Governo implantava em áreas indígenas. Nunca foi a favor de sua autonomia e nem de sua cultura. Sua política sempre foi integracionista. Toda a vez que o Governo cria um grande projeto na Amazônia em terras indígenas, o índio é visto como “empecilho” e como tal, afastado do caminho. E a FUNAI sempre colaborou nesta ação do Governo. Da BR-174, Mineração Taboca e hidrelétrica de Balbina em terras Waimiri-Atroari, aos tempos de Belo Monte em terras Kayapó, a atitude dos dirigentes da FUNAI não mudou.


O que a FUNAI, como órgão do Governo fez a favor do índio em toda a sua história, foi feito sob a pressão e o empenho dos próprios índios, animados pela teimosa parceria do movimento popular e de jornalistas que acreditaram na sua causa.


Por Egydio Schwade

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