VALE DO JAVARI: OS KANAMARI MOSTRAM SUA CULTRA



“Antes, os Kanamari não precisavam de roupa, sal, sabão e outras coisas que os kariuá usam. Quando os brancos chegaram trazendo tudo isso, nós nos tornamos dependentes”. Com estas palavras o cacique Tomita Kanamari, da aldeia Massapê, começou a conversa com as lideranças na manhã do primeiro dia do V Encontro do Povo Kanamari. O apelo de Tomita era para que os indígenas, durante o Festival que se realizaria naqueles dias, não abandonassem sua tradição – razão pela qual o evento vem sendo realizado em diferentes aldeias a cada ano e para que todos os Kanamari possam participar.
Antes das seis horas, as lideranças locais se reuniam na casa especialmente construída para o evento, ligavam o aparelho de som e animavam a comunidade.  No malocão localizado ao fundo da comunidade, a movimentação era grande o tempo inteiro. Ali as mulheres preparavam os alimentos. E era para lá que todos os participantes e convidados eram encaminhados nas horas das refeições.
Nos primeiros dias havia fartura. Peixes, carne, mingau de banana, macaxeira, caldo de cana e outros produtos dos roçados eram servidos sob o canto alegre das mulheres e a atenção do cacique Arabunã e do pajé Raimundo Iwi. Depois, seguia a festa. No campo, no centro da aldeia, partidas de futebol acontecia a qualquer hora, mesmo debaixo do sol intenso do meio dia.
Entre uma partida e outra, os grupos de trabalho partiam para a mata, atrás de caça, ou para os lagos e igarapés, em busca dos peixes que são fartos nessa época do ano.
À noite, sob o clarão da lua crescente, perto das dez horas, indígenas e convidados eram chamados para o hai-hai – um ritual onde todos poderiam beber o rami – bebida feita de ayahuasca e outras ervas, preparada pelo marinawa - o curandeiro da aldeia que prepara e usa a bebida para identificar as doenças e curar os enfermos. Após ingestão do rami, um breve silêncio seguido de uma cantoria que entrava pela madrugada.   
A “guerra” dos isolados - Sem dúvida, um dos momentos mais esperados do Festival foi a “guerra” com os Korubo de um lado e Flecheiros de outro. Na manhã do dia 30, começou uma guerra entre os isolados na aldeia Bananeira, que deixou marcas dos corpos dos guerreiros e guerreiras, mostrando o lado dolorido da brincadeira.
Os Kanamari tem uma tradição de resolver seus problemas internos no momento da “guerra do peixe boi”. Quando alguns membros da mesma família e comunidade ou de diferentes comunidades tem rixa ou precisam “acertar contas”, eles esperam chegar por esse momento. Ali, cada um pega um chicote feito com couro de anta e desfere várias pancadas no desafeto, que depois tem também sua vez de bater.
A encenação é feita com talo da folha de bananeira para que a dor não seja tão intensa. Mesmo assim, os participantes saem com escoriações.
No festival deste ano, os Kanamari fizeram uma referência a dois povos que ainda não tem contato, nem com os indígenas nem com a sociedade envolvente. Os Korubo, porém, já são bastante conhecidos pela história de violência que eles sofreram em épocas recentes. Eles vivem em várias comunidades entre os rios Itacoaí, Ituí e Coari. Alguns indivíduos já mantem presença na base da Frente de Proteção Etnoambienal do Vale do Javari, localizada na confluência dos rios Itacoaí e Ituí, a cerca 60 quilômetros da sede do município de Atalaia do Norte.

Comments