VALE DO JAVARI: POVO KANAMARI REALIZA ENCONTRO E FESTIVAL CULTURAL

 Entre os dias 27 e 31 de julho mais de 300 indígenas de oito aldeias localizadas nos rios Itacoaí e Javari participaram do IV Encontro do Povo Kanamari e V Festival da Cultura do Povo Kanamari, na aldeia Bananeira, localizada a cerca de 400 quilômetros de Atalaia do Norte, município do oeste do estado do Amazonas, na fronteira com o Peru.

O IV Encontro do Povo Kanamari foi realizado em meio a dois acontecimentos que repercutem sobre todos os povos do Vale do Javari. No que se refere à saúde, dentro de alguns dias deverá haver mudança na direção do Distrito Sanitário Especial Indígena – Dsei, da Secretaria Especial de Saúde Indígena – Sesai, do Vale do Javari. Outra mudança acontece na estrutura da Fundação Nacional do Índio - Funai, com a criação da Coordenação Regional do Vale do Javari.
O ex-coordenador da Funai de Atalaia do Norte, Heródoto Jean Sales, é o nome indicado para assumir a direção do Dsei, com apoio dos indígenas, em substituição a Evan de Almeida, o atual gestor desde meados do ano passado. No período de aproximadamente um ano em que ele esteve à frente do órgão poucas foram as ações nas comunidades e nenhuma das principais reivindicações dos indígenas foi atendida, como a construção de postos de saúde, estruturação dos pólos-base, permanência de profissionais em área ou fornecimento de medicamentos.
Por outro lado, a criação da Coordenação Regional da Funai do Vale do Javari vem sendo pleiteada pelos indígenas daquela região desde a reestruturação do órgão indigenista há cerca de três anos. Os povos do Vale do Javari estavam sob jurisdição da Coordenação Regional do Vale do Juruá e era motivo de críticas por parte das lideranças. “Os técnicos de Brasília fizeram a divisão baseada só pelo que viram no mapa. Nunca estiveram na região para verificar a distância e as diferenças entre o vale do Juruá e o Vale do Javari”, critica Kurá Kanamari.
A ausência de dirigentes de outros órgãos governamentais deixou os participantes contrariados. A Funai e a Frente de Proteção Etnoambiental – órgão responsável pela vigilância da área onde se encontram indígenas sem contato -, mandaram representantes. Os indígenas esperavam dirigentes da Secretaria de Estado da Educação e Qualidde do Ensino – Seduc, e Secretaria Especial de Saúde Indígena – Sesai.
Para a Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari os participantes do Encontro encaminharam documento solicitando a vigilância permanente até a altura da localidade denominada Volta do Passarinho. De acordo com os Kanamari com freqüência são vistos pescadores ou caçadores que conseguem burlar a fiscalização e representam ameaça a vida dos povos isolados – especialmente dos Korubo, conhecidos na região como “caceteiros”.
A cerca de três horas de deslizador desde a base da Frente de Proteção é possível avistar os Korubo. Eles ficam na praia e chamam quem passa pelo local para fazer troca. Eles pedem farinha e outros alimentos em troca de artesanato, dizem os indígenas.
Educação - Os participantes do Encontro também encaminham à Secretaria de Estado da Educação solicitação para manutenção de um professor junto aos Kanamari. Nas oito aldeias localizadas ao longo do rio Itacoaí e nas que ficam no rio Javari não há escolas. As aulas são ministradas nas casas dos professores, em barracos de lona ou em outras construções improvisadas. Na aldeia Bananeira, as aulas acontecem na casa do professor Atchou Kanamari, onde as crianças sentam no chão e muitas vezes nem tem material escolar.
“No início do ano eu fui à Secretaria Municipal de Educação buscar material e eles só me deram seis lápis, seis apontadores, borrachas e uns maços de papel”, disse o professor. Ao todo, ele atende 58 alunos do ensino fundamental e médio. Sem material e sem merenda escolar, ele conta que já teve de deixar a sala de aula para pescar e trabalhar na roça para garantir o alimento para os seus alunos. Por causa disso, foi chamado a atenção pelo cacique da aldeia, que exigia a presença dele na sala de aula.

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