A VOZ DAS RUAS E O DISCURSO DA PRESIDENTA

 “O Brasil hoje acordou mais forte. A grandeza das manifestações de ontem comprova a energia da nossa democracia, a força da voz da rua e o civismo da nossa população”. Essas foram as palavras da presidenta Dilma Roussef hoje. 18/06, para uma platéia de empresários durante a apresentação do novo marco regulatório da mineração. O discurso foi, sem dúvida, muito efusivo, louvando a iniciativa, o civismo e ressaltando o caráter democrático das manifestações.
Uma observação atenta ao contexto e ao discurso pode nos sugerir que as palavras da Presidente são pura desfaçatez! Longe das ruas, blindada por seguranças,   cercada por uma elite indiferente aos clamores populares, ela anuncia medidas que só interessam aos verdadeiros responsáveis pelo estado de esbulho e exclusão  que tem consumido todos os tipos de reservas do País: das reservas de recursos naturais às reservas de tolerância do povo brasileiro.
O Governo de Dilma Roussef, para atender aos lobbies das mineradoras, das empreiteiras e dos latifundiários tem se mantido indiferente, por exemplo, aos apelos dos povos indígenas para que eles sejam ouvidos antes da construção de obras que afetam suas terras – como no caso das barragens de Belo Monte e outros complexos hidrelétricos. A propósito, antes mesmo de outros setores da sociedade civil tomar as ruas, foram os indígenas que, em abril passado,  ocuparam o Congresso Nacional e sustaram, com muita determinação e clareza, emendas à Constituição que afetam seus direitos.
Para atingir suas metas, o Governo vai mais longe: atropela a Constituição, cria novos artifícios para dar uma aparência de legalidade às suas ações, criminaliza as ações das lideranças que não aceitam suas imposições e, como se estivesse pactuado com os setores mais conservadores da sociedade, isenta-se de agir em defesa dos mais fracos. E, assim, vai manchando-se com sangue dos mártires indígenas e ambientalistas assassinados nos últimos anos.
O recado dado pelas manifestações vai além da insatisfação com o preço das passagens, da corrupção e dos péssimos serviços públicos. São atos que expõem um desejo há muito silenciado pela demagogia da direita ou da esquerda.  Não basta ter a democracia no papel se a sociedade não é chamada para discutir aberta e livremente os assuntos que interessam, de fato, a todas as populações do País. Políticos de todas as ordens, apoiados na prerrogativa da “representatividade”, sem nenhum escrúpulo aprovam matérias contrárias aos interesses da maioria e o fazem a troco, muitas vezes, de verbas para aprovação de emendas.

Hoje, quem comanda o país já esteve, anos atrás, ocupando as ruas e se manifestando contra os atos dos governos de ocasião. E lá os vemos repetindo as mesmas velhas fórmulas, amparados pelos mecanismos de um Estado que eles tanto combateram e dos quais foram vítimas. Mas, se o poder conseguiu apagar a luta da memória deles, a história nos mostra que – como no poema de Maiakovski - podem até roubar uma flor do nosso jardim, mas o povo sempre terá a força da primavera.  

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