“Câncer” das abelhas tem relação direta com agrotóxicos









Elas desapareceram sem deixar pista. E continuaram sumindo, todos os anos, no inverno. Quando os
apicultores da Flórida e da Califórnia iam checar, encontravam apenas as abelhas mais novinhas, recém-nascidas, e a rainha, que não deixa a colmeia por nada nesse mundo.

O restante da população tinha sumido, deixando para trás a comunidade e um grupo de especialistas sem saber o que fazer. De início eles conseguiram apenas dar nome ao fenômeno: Colony Colapse Disease, ou Doença do Colapso da Colmeia (CCD).

Há sete anos, Dennis van Engelsdorp se debruça sobre o problema que se tornou um grande quebra-cabeças.

Tão complexo que no fim deste mês ele vai ao Brasil a convite da Fundação Gates para participar de um seminário sobre Mulheres e Pobreza. E as abelhas com isso? Foi exatamente o que eu perguntei. Enquanto preenchia a papelada para pedir o visto brasileiro à Embaixada em Washington, ele esclareceu:

– Vou falar sobre como tentar resolver problemas complicados que parecem simples.

Ah, entendi!

O problema que parece simples consome o pesquisador e apicultor há quase uma década. Mas agora, ele está chegando mais perto das respostas.

Dennis vanEngelsdorp é co-autor de uma pesquisa recém-publicada sobre a relação de pesticidas e fungicidas com o mistério do desaparecimento das abelhas. Um problema que com o tempo está se revelando ainda mais complexo do que parecia ser.

Hoje, vanEnglesdorp compara a doença das abelhas com o câncer. Uma doença com várias faces. As abelhas provavelmente estão sofrendo com algo como o câncer, uma denominação genérica para vários tipos de manifestações diferentes da mesma doença. Existe o de pulmão, o de pele, o de ovário, e assim por diante. Dennis vanEngelsdorp acha que o mesmo acontece com as abelhas.

Os apicultores se assustaram primeiro, com o sumiço completo das abelhas. Agora, elas estão adoecendo mais lentamente.

– Quando falamos de CCD estamos falando de colônias em que todas as abelhas morrem ou abandonam a colmeia em duas semanas. Não sobra nenhuma abelha. Somente os bebês. E as abelhas são como todos os animais. Nunca abandonam os filhos. Só abandonam se o problema é terrível. Quando sentem que estão doentes, elas vão embora para não contaminar as outras abelhas. Agora, estamos vendo uma morte mais lenta das colônias.

Os cientistas já sabem que o consumo de pesticidas e fungicidas enfraquece o sistema imunológico das abelhas. Em consequência, elas já não resistem a parasitas que antes enfrentavam com facilidade.

Hoje, as plantações de milho e soja, cada vez mais extensas, não são mais cercadas de cultivos variados, como antes. As abelhas têm uma variedade cada vez menor de alimentos à disposição.

Os pesticidas usados na agricultura se espalham para além das áreas de cultivo. Os fungicidas, que pareciam inofensivos para as abelhas, se mostraram um risco.

Na pesquisa, vanEngelsdorp e os colegas encontraram até 35 pesticidas diferentes em algumas amostras de pólen e uma grande concentração, também, de fungicidas. Eles descobriram que existe uma relação direta entre o consumo de fungicidas e o enfraquecimento do sistema imunológico das abelhas.

“Recolhemos pólen de diferentes cultivos e alimentamos as abelhas. As que comeram o pólen com maior concentração de fungicida se mostraram mais suscetíveis a doenças. Normalmente, são os inseticidas que causam problemas. E existem regras para a aplicação de pesticidas em flores. Mas não existe regra para os fungicidas. Nós não achamos que eles matam as abelhas, mas as enfraquecem. A mesma coisa que acontece com a alimentação. Se você não come bem, acaba ficando doente”, diz vanEngelsdorp.

O estudo divulgado agora foi o primeiro grande avanço no combate ao mistério do desaparecimento das abelhas.

O próximo passo, diz o cientista, é entender melhor o que acontece quando os diferentes produtos químicos se combinam.

Se as abelhas que se alimentam bem podem sobreviver melhor aos efeitos dos pesticidas. Os pesquisadores também vão estudar como evitar que os produtos químicos cheguem às colmeias. “Não se trata apenas de descobrir o que está matando as abelhas, mas também determinar como é possível mantê-las saudáveis”.

Por que tanta preocupação com as abelhas? Não é só porque van Engelsdorp é apicultor há anos e sempre admirou a eficiência e a complexidade das colmeias. É que, sem as abelhas, a variedade de alimentos que nós consumimos vai diminuir muito.

Sem o leva e trás de pólen de uma flor a outra, vai ser impossível produzir uma grande variedade de frutas. Se as abelhas morrem, também some com elas boa parte da nossa alimentação.


Viomundo/Heloisa Villela

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