O Brasil endireitou

Num artigo publicado no último  domingo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deu o tom do que
imagina ser o candidato ideal na disputa para a presidência da República, em 2018. Eis o que ele escreveu:

Torço para que se apresente quem proclame alto e bom som que zelar pelo equilíbrio fiscal é obrigação de qualquer governante responsável, pois o descontrole das contas públicas leva à inflação, que rouba a renda dos mais pobres; que sem investimento e crescimento econômico não há sustentabilidade das políticas de inclusão social, mas também que sem estas o “mercado” concentra a renda e frustra a aspiração legítima por justiça social.

Um candidato que não se omita na discussão sobre os direitos reprodutivos das mulheres, inclusive o aborto, assim como sobre o uso de drogas (e as melhores políticas para reduzir o seu consumo) nem tema afirmar que todas as pessoas devem ter a liberdade de escolher sua orientação sexual sem prejuízo dos seus direitos como cidadãos iguais aos demais. Noutros termos, precisamos de uma candidatura presidencial que seja fiscalmente responsável, socialmente progressista e culturalmente liberal.

Passemos, agora, ao balanço das urnas. Incontestavelmente, o Partido dos Trabalhadores, que perdeu mais da metade de suas prefeituras, foi o grande derrotado. Na ponta inversa, o PSDB foi o maior vitorioso, especialmente pela vitória esmagadora em São Paulo – não apenas na capital, mas nas principais metrópoles do estado mais rico do País, que faz jus ao apelido Tucanistão (leia mais aqui).

Mas se o PSDB venceu, a questão a se colocar é: qual PSDB? Comecemos pelos derrotados. O maior perdedor, incontestavelmente, foi José Serra, que ridicularizou João Doria Júnior e estimulou seu candidato Andrea Matarazzo a sair do partido para que ele terminasse como vice da quarta colocada na disputa, a neopeemedebista Marta Suplicy. Um final melancólico para quem imaginava que poderia, a partir de São Paulo, construir mais uma tentativa de chegar à presidência.

O senador Aécio Neves (PSDB-MG), embora tenha feito o PSDB voltar a crescer após a campanha de ódio movida contra o PT depois de sua derrota presidencial, fortaleceu seu partido, mas não será o maior beneficiário desse processo. O sinal mais evidente virá quando Alckmin, com o peso das máquinas estadual e municipal de São Paulo, implantar aliados no comando do diretório nacional dos tucanos.

E FHC? Ganhou ou perdeu? Por mais que se sinta vitorioso com o inferno astral do ex-presidente Luiz Inácio Lula, contra quem duela há três décadas, o PSDB que emerge das urnas não é exatamente o do partido social-democrata vendido em seu artigo. Em nenhuma hipótese, será possível dizer que venceu o modelo "fiscalmente responsável, socialmente progressista e culturalmente liberal", proposto por FHC.

Frequentemente associado à Opus Dei, Alckmin dificilmente será o candidato que irá defender o aborto, a legalização das drogas e o casamento gay, como propôs FHC. Melhor do que os caciques de Higienópolis, ele percebeu para onde o vento soprava, no Brasil pós-Lava Jato, e irá dar uma nova feição ao PSDB.

O fato é que o Brasil endireitou. E a nova direita, hoje representada pelo PSDB, tem uma cara nítida, que é a de Geraldo Alckmin. Ele será o candidato em 2018 e o que ainda permanece como incógnita é se, depois da vitória de ontem, ele irá temperar seu discurso com pitadas social-democratas ou se irá seguir sua intuição – a mesma que fez de Doria o maior vencedor da história de São Paulo, contra todos os prognósticos.

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